LOOP DISCOS

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(Vinil 7'') Deluce - O Mundo de Deluce

R$ 30.00
ou em 3x de R$ 10.60

O Mundo de Deluce 
Lado A - Você e Você
Lado B - A Vida é um Cabaret



Para ler antes de assobiando

Por Marcélo Ferla

Tudo o que eu posso dizer é que você deve ter muito cuidado ao entrar no mundo de Deluce. Embutida em todo o lirismo e na doçura pop de suas canções para acampamento, há uma análise contundente aos estranhos costumes destes tempos tão fugazes. Ele vai te fazer pegar leve, mas ir fundo. Na superfície tudo não passa de um pop assobiável, com tanto apelo publicitário que provavelmente há o logotipo de uma agência em algum canto deste release cheio de elogios, que provavelmente foi entregue em um kit descolado com uma proposta neorretrô e que, em algum momento, provavelmente terá um videoclipe protagonizado por uma garota com um piercing no nariz.

Se for ok pra você, aproveite inclusive a embalagem, só não descarte o conteúdo – se você não souber exatamente o que é conteúdo, pare por aqui e nem ouse tentar no Google.

Quando eu ouvi os primeiros rascunhos das canções de Deluce, numa destas audições que lembram os artifícios das velhas gravadoras (e eu trabalhei em uma delas e sei bem como funciona, mas vou explicar:), com amigos-bebida-fumaça e um som de estúdio que você não tem em sua casa nem nunca terá, achei incrível como se eu tivesse ouvindo o Guilherme Arantes pela primeira vez, mas já conhecendo seus hits. Naquele ambiente tão propício, porém, era difícil não sair contaminado pela riqueza melódica, as referências do pop brasileiro dos anos 70, um tanto mal avaliado na época (era muito melhor do que se dizia), e a voz cristalina de Deluce. Depois eu percebi que não era bem o que eu tinha percebido. Deluce é um jovem hippie que faz música de velhos hippies, com uma pureza que beira a ingenuidade e um tom de esperança que se reflete em frases como “limpe a tristeza na cara e deixe / essa força que existe em você”, de “Você & Você”, estrategicamente escolhida como a faixa 1 de um disco de 11 músicas que não necessariamente compõem um álbum, no velho sentido e formato da indústria fonográfica, mas que têm similaridade melódica e uma profusão de refrões que lhe concedem identidade. Só que não.

Deluce é um hippie. Que faz música como os velhos hippies. Que aprecia a pureza das pessoas e que valoriza a ingenuidade e que gostaria de imprimir um tom de esperança ao mundo, mas tem vivência pra saber que viver também é doloroso, como nos versos de “Dói”, estrategicamente escolhida como a faixa 11 de um disco de 11 músicas que se chama O Mundo de Deluce e te conduz para uma reflexão crítica da vida como ela é e como está se transformando, com melodias pungentes e versos duros: “sinto cheiro de remédio nesse dia ensolarado / a estranha sensação de fazer sempre algo errado”.

Entre a 1 e a 11, como se fosse um time de futebol,há faixas nas mais diversas posições e com funções variadas: tem a que Cazuza poderia ter gravado, “É uma flor”, basicamente uma cantada numa garota (eu não sei se funcionou com ela); as egocêntricas e catárticas “Serenata pra mim” e “Tão melhor”; a sensacional “A vida é um cabaret”, crônica com trilha circense dos maus costumes do mundo contemporâneo – “o Kama Sutra hoje é livro escolar / e o pudor cedeu lugar à perversão (...) a Bossa Nova que ensinou a cochichar / vive acuada em Ipanema ou no Leblon / é que o Funk toca aqui, toca acolá / a vida é um cabaret”; o rock visceral “Vai à merda”, com toda aquela raiva e indulgência de quem levou um pé-na-bunda: “e dos conselhos que ouvi / você me dar tantas horas / eu escrevi um livro de autoajuda / uma bosta!”; a balada “Vícios”, cuja melodia singela é brilhantemente desproporcional ao conteúdo de sua letra brilhante, capaz de condensar em seus versos a linha conceitual deste trabalho, que reconhece a importância do sonho mas não omite a crueza da realidade, que critica impiedosamente o mundo por não se contentar com banalidades, mas que o faz com a mesma clareza da voz de Deluce, um dom, uma dádiva: “e esse rock amador, regressivo / resultado de uma vida noveleira / e esses versos sempre iguais / escrachados num refrão da mais medíocre das besteiras / O que eu quero é sentir mais emoções / nesta jaula de animais fanfarrões (...) vou viver pra sempre louco a cantar / pelas ruas moribundas pairar / o burguês ou o pracinha, o proletário / vão cumprir o seu dever sempre igual / sempre igual / sempre igual.”

E finalmente, se te perguntarem “que tipo de som esse Deluce faz”, dispense os rótulos, um recurso publicitário (como este release) muito utilizado pelos jornalistas (como este que vos escreve). Responda “música com emoção.” É mais justo, e mais sincero, como este texto que você acaba de ler.

 

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