Bibiana - Dengo

  
Fora de estoque

"Não sei pra você, mas pra mim não é nada comum sentar pra tomar um café com uma guria de 20 anos e ela botar na mesma frase, sem nenhuma afetação, Paulinho da Viola, Baden Powell, Vinícius de Moraes e Haydn.

Pois essa é a Bibiana.

Ok, eu sei que hoje isso é muito mais do que era 25 anos atrás, quando eu tinha 20 anos, estávamos nos anos 80 e me corroia a solitária sensação de ser um dos dois únicos fãs do Cartola e do Noel Rosa no meu entorno (o outro era o Marcelo Delacroix). A novíssima geração de compositores e compositoras gaúchas a que a Bibiana pertence finalmente descobriu um troço sensacional: o Rio Grande do Sul, ora veja que espanto!, fica no Brasil.

Voltando pra guria, a gente vai conversando e as coisas vão se encaixando: ela estudou violino e teoria musical na Tio Zequinha - escola tão boa quanto ruim é seu nome –, pelo método Suzuki, desde os seis anos de idade. Dali partiu pra um mundaréu de instrumentos, em especial o violão (que toca pacas!) e o cavaquinho, exercitados tanto em oficinas de choro quando nos bailes de samba-rock da vida. Hoje faz faculdade de música. Convenhamos: não é uma formação comum em cantoras de 20 anos.

Mas aí também tem isso: Bibiana, tadinha, é muito jovem ainda. E por isso, me corrigiria neste momento: “Não sou cantora. Sou uma compositora que canta as suas músicas”. Ela vai crescer, gente. E aí vai parar com essa bobagem, encostar seu talento de intérprete no de instrumentista e compositora, amadurecer, perder uns cacoetes, reforçar outros. Mas o importante já tá ali: não é uma artista como as que, aparecendo às dezenas nos últimos anos, são clonadas em suas referências. Ela não é clone de ninguém. E tem suingue (já dizia o Simonal: quem não tem suingue morre com a boca cheia de formiga), boas letras, boas harmonias. E belas melodias como a de “Eu Aceito”, letra confessional e sensível, onde tudo é descoberta.

Resta dizer que o disco é tremendamente bem gravado e produzido. Você ouve, por exemplo, “Desavença”, e se delicia com o quanto evitou-se uma infinidade de clichês possíveis, surpreendendo em belas sacadas de arranjo e sonoridade.

E apesar de ter sido gravado ao longo de anos, e com participações de instrumentistas lendários da música popular do Rio Grande do Sul como o pianista Paulo Dorfmann e o flautista Ayres Pothoff, os dois na ativa desde os anos 70 (mais uma sabedoria: sentar n ombro dos grandes), o trabalho conseguiu ter uma unidade que soa como se o pessoal tivesse ensaiado junto e gravado tudo de uma vez.

Mérito do time de produtores, tão eclético quanto surpreendentemente harmonioso, explicado por uma grande convivência: Edo Portugal, Pedro Petracco, Nando Endres, 4Nazzo e Edu Santos são ou foram todos parceiros na Loop, produtora de áudio/celeiro de música que é propriedade dos dois últimos, e onde os primeiros quatro – e também Bibiana – trabalham ou trabalharam. E onde tudo começou, quando a guria teve como encomenda uma canção para uma montagem grandiosa de “A Mulher Sem Pecado”, de Nelson Rodrigues (está aqui, no disco: “Meu Bem”) e, tudo pronto, o Edu disse:

- Bah, cara, tu tem de fazer um disco todo teu.
Taí o resultado.
E ainda tem o Julio Reny e o Antonio Villeroy de brinde, quase numa benção”.

Arthur de Faria. 

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